No centro da tela, um pescador surge sentado em um pequeno barco, construído mais por massas de cor do que por linhas. O casco é indicado por um arco espesso de tinta escura, onde camadas de azul profundo e cinza se sobrepõem, criando peso e estabilidade. O corpo do pescador se ergue a partir do interior do barco como um bloco vertical de matéria pictórica, em tons terrosos misturados a verdes escurecidos, sugerindo roupa, postura e presença.
O rosto não é definido; apenas uma inclinação da cabeça, criada por uma leve quebra de textura, indica contemplação. A água ao redor não se separa nitidamente do barco: manchas alongadas e arrastos horizontais fazem com que ambos pareçam fundidos no mesmo ritmo. Reflexos surgem como riscos claros raspados sobre a tinta ainda úmida, evocando o movimento lento da superfície.
O céu ocupa a parte superior da composição com camadas mais leves e translúcidas, onde branco salino, azul esmaecido e amarelo opaco se misturam, criando uma atmosfera de amanhecer silencioso. A obra transmite solidão serena e conexão íntima entre homem, barco e água, sem recorrer à narrativa literal, deixando que a matéria da pintura conduza a emoção.